Longa do diretor cearense Karim Ainouz, que tem Wagner Moura
como protagonista, disputa com outros 19 filmes (publicado hoje no Jornal de Jundiaí)
Por: Sandra Mezzalira Gomes, de Berlim
Hoje a noite será entregue, entre outros prêmios, o cobiçado
Urso de Ouro da 64° Berlinale, Festival
de Cinema de Berlim, realizado de 6 a 16 de fevereiro. Vinte filmes, de vinte e
um países (vários são coproduções) estão concorrendo. O Brasil, que desde 2008
não entrava na competição, disputa com “Praia do Futuro”.
Em 106 minutos, o longa do diretor cearense Karim Ainouz,
coprodução Brasil-Alemanha, foi filmado em Fortaleza e Berlim. Donato, o
personagem de Wagner Moura que ficou conhecido como Capitão Nascimento, de “Tropa de Elite”, é um bombeiro e tenta
salvar, logo no início do filme, dois turistas alemães que se arriscam
no turbulento mar da Praia do Futuro. Um deles morre afogado. “A
história começa com morte, mas os
personagens são cheios de vida e vontade de mudar”, comentou Karim na coletiva
de imprensa organizada pela Embaixada Brasileira em Berlim, na última
quinta-feira, no Instituto Íbero
Americano.
O roteiro segue mostrando o bombeiro Donato se envolvendo
com o turista alemão Konrad (Clemens Schick) a ponto de decidir largar tudo,
inclusive Ayrton, seu irmão mais novo para o qual é praticamente um pai, e
tentar a vida na capital alemã, ao lado do amante. “Falamos da partida, das
mudanças, da reinvenção das pessoas. O fato de serem dois homens se amando é
apenas um detalhe, quisemos olhar no
íntimo do ser humano para entender o que é esta experiência de sair do país”,
explicou Karim.
Para o diretor, o filme tematiza, sim, também a masculinidade em 2014 e é baseado
praticamente nos três personagens: Donato, Konrad e Ayrton. Entretanto,
o ponto principal é a busca pela vida, as diferentes emoções que todos,
homens e mulheres, vivemos.”É importante mostrar que homem também chora, que,
mesmo sendo um herói, também pode ser um covarde. Donato abandona a família
radicalmente e passa anos sem entrar em contato. Os motivos que o levam a ter
de apagar seu passado para se reencontrar são tantos, que preferimos não dar uma resposta. É um
filme que fala também de afeto”.
Wagner Moura afirma que foi preciso conhecer bem o ator
Clemens Schick e desenvolver uma grande empatia para poder realizar o projeto.
“Quando jantamos juntos pela primeira vez e Karim falou do filme, sabia que teríamos uma jornada difícil,
complexa e linda pela frente e não teria como funcionar se não tivesse uma
simpatia, uma identificação artística entre nós”.
São várias as cenas
nas quais os dois aparecem fazendo sexo e se acariciando. “É um filme de muito
silêncio e eu gosto disso. O Donato é misterioso, o mundo acontece dentro dele,
o Karim me filmou muito parado, só o rosto, o personagem se coloca muito
fisicamente, como ele transa, dança ou nada.
Para muita coisa, no cinema, não é preciso palavras”, observa Moura.
Outra cena marcante é o reencontro dos dois irmãos. Ayrton,
interpretado por Jesuita Barbosa, economiza dinheiro após a morte da mãe em
Fortaleza, para procurar Donato na
Europa, que não via desde sua infância. Então adolescente, chega de surpresa em
seu apartamento em Berlim. “Como seria o diálogo de duas pessoas que não se
veem há oito anos? Oi, tudo bem? Não tinha como ter um diálogo, tinha de ser
uma ação física”, explica Karim. Os irmãos se abraçam e se repudiam
simultaneamente, Ayrton bate, num certo momento, com ódio em Donato. “Fazer esta cena foi bem difícil,
o Wagner é um homem grande e tive de pensar no corpo dele também para não
machucá-lo. Quando se ama, também se
odeia”, disse Jesuíta Barbosa, que foi muito elogiado por sua atuação.
Karim, morador em Berlim há alguns anos, explica que a
cidade tem ainda esta dualidade, por ter sida dividida pelo muro, passa por
constantes transformações de se renovar, de continuar buscando um novo caminho.
“Quando o muro cai, as pessoas se reencontram. Berlim é a cidade do futuro,
cheio de pessoas que têm vontade de encontrar a vida. Aqui também há vários
espaços vazios, que proporcionam ao emigrante confrontar-se consigo mesmo, nestes lugares de passagem”, analisou Karim,
comentando que as filmagens na capital alemã duraram cerca de seis semanas.
Se a história irá convencer os jurados, saberemos hoje a
noite, no BerlinalerPalast. Os brasileiros que quiserem conferir o trabalho,
poderão fazê-lo a partir de primeiro de maio, quando “Praia do Futuro” estreará
nas principais capitais brasileiras.
Outros longas
O Brasil também participou do festival em outras sessões,
como “Panorama”, com o filme “Hoje eu quero voltar sozinho”, do diretor Daniel
Ribeiro (estréia no final de março em São Paulo e Rio), “O Homem das
multidões”, dos diretores Marcelo Gomes e Cao Guimarães, no “Forum” com
“Castanha”, de Davi Pretto e com o curta no “GenerationKPlus” de Giuliana
Monteiro, “Eu não digo adeus, digo até logo”. http://portaljj.com.br/interna.asp?Int_IDSecao=1&Int_ID=221568
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