Friday, 21 February 2014

Primeiro dia da „Maratona Berlinale“: 71, O Homem das Multidões, Jack, Hütter Meines Bruders

Oficialmente a minha Berlinale começou no sábado, dia 07. O primeiro filme, às 9:30 da manhã, no Zoo Palast, próximo a Zoologischer Garten, num dia ensolarado. 

Ao meu lado, um simpático e atraente estudante de história. Cinema lotado para assistir a produção irlandesa de Yann Demange, ´71, um dos 20 filmes que concorreu ao Urso de Ouro.


Em cem minutos, o longa retrata os conflitos no norte da Irlanda na década de 70. O recruta Gary Hook (Jack O´Connell) é escalado para atuar numa área de conflito em Belfast. A cidade está dividida entre Protestantes e Católicos, que vivem uma guerra civil. Ambos possuem apoio do exército e defendem cegamente suas convicções.


Em uma das atuações dos soldados na região de conflito, Garry se perde junto com um colega ao perseguir um garoto que rouba uma das armas. O colega é morto e Garry fica sozinho na terra do inimigo, passando por diversas situações, medo, dor, violência, solidariedade, compaixão e traição, tentando se esconder e achar o caminho para o quartel.


Forte, com muitas cenas de violência e sangue, o filme baseado em fatos reais, mostra o quão cruel,  perigoso e sem sentido uma guerra de ideologias pode ser. E como o ser humano pode ser manipulador, mesquinho, mentiroso, mau..... por outro lado, Garry mostra várias qualidades como pessoa, inclusive sua lealdade ao filho pequeno e colegas. Não é o meu estilo preferido mas com certeza, um bom filme.


O diretor Yann Demange nasceu em Paris em 1977 e foi criado em Londres.  


Após uma pausa para o almoço rápido, em casa, às 14:30 a estréia do primeiro filme brasileiro neste festival: “O Homem das Multidões”, no cinema International, próximo a Alexanderplatz, uma sala linda com cortina prateada! 


Sentei ao lado de um grande amigo que encontrei coincidentemente por lá. Assistimos ao filme com a presença da equipe e dos diretores de Recife na sala, Marcelo Gomes e Cao Guimarães. Filmado em Belo Horizonte em 2013, mostrou em 95 minutos a solidão nas grandes cidades.


Centrada praticamente em dois personagens, é a história de Juvenal (Paulo André) e Margô (Silvia Lourenço), que trabalham juntos para a estação  ferroviária. Juvenal mora sozinho, possui apenas um único copo para tomar água, uma única cadeira para a mesa da cozinha, geladeira vazia, contendo apenas algo para beber e enlatados, e um fogão cheio de tranqueiras em cima, no qual é impossível cozinhar.


Apesar de estar sempre entre as pessoas, Juvenal se fecha na sua realidade e não busca contato. Introvertido, parece conformado com sua solidão e estilo de vida. Seu contato com as pessoas limita-se aos diálogos básicos.


Margô vive com seu pai, idoso e de poucas palavras. Vive no computador, onde busca o contato virtual, mas no dia a dia também se isola. Sem opções, acaba convidando Juvenal para ser seu padrinho de casamento com um rapaz que também conheceu pela internet.


Juvenal recusa a princípio, mas acaba cedendo e os dois tentam então, criar vínculos. Poético, a produção é um show de imagens e cenas, resultado também da mistura das qualidades artísticas de Cao Guimaraes e de direção de Marcelo Gomes. As cenas, num formato quadrado, combinam com a moderna tecnologia digital e traz um resultado diferenciado.


Com mensagens profundas, o filme tem, no entanto, um ritmo lento (duas pessoas na minha fileira dormiram! L ). Particularmente gostaria que tivessem explorado mais os motivos que levam ao isolamento, entretanto, de forma geral, gostei bastante do resultado.


O filme participou da Berlinale na sessão “Panorama”. Marcelo Gomes trabalhou também com o diretor Karim Ainouz (Praia do Futuro) no filme “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, que estreou em 2009 em Veneza.


Da Alexanderplatz, segui para a Friedrichstrasse, onde, às 18:00, assisti à outra produção concorrendo ao Urso de Ouro: “Jack”, no Friedrichstadt Palast. O diretor de Wolfsburg, Edward Berger, filmou a história de 103 minutos em Berlim, recheando a tela com belas paisagens da cidade.


É praticamente impossível não se envolver com Jack desde o início do drama. Um dos melhores atores, principalmente se consideramos a idade, o garoto Ivo Pietzcker rouba a cena com sua atuação. Na pele de “Jack”, de 10 anos, ele mostra a vida de um criança que é obrigada a virar adulto antes do tempo. Não só cuida de si mesmo, se vestindo, preparando seu próprio café da manhã e indo para a escola como ainda, cuida do irmão mais novo, Manuel (Georg Arms). 


A mãe, sozinha para criar as duas crianças de diferentes pais, quando está presente, é carinhosa, mas parece mais preocupada em encontrar um novo parceiro do que cuidar dos filhos. O roteiro não cai no clichê de drogas ou outros problemas psicológicos, mostra uma mãe jovem, imatura, que parece não perceber o mal que causa aos filhos com sua ausência.


Após um acidente com Manuel, que queima as pernas na banheira por a água estar muito quente, Jack é enviado a um orfanato e começa a viver um lado ainda mais duro da vida. Tudo piora, no entanto, quando ele tem a permissão pra visitar a mãe e o irmão, mas esta o deixa esperando e não vai busca-lo no dia combinado.


Revoltado, Jack foge do orfanato e encontra a porta de sua casa fechada. Busca seu irmão na casa de uma amiga da mãe e eles passam dias perambulando por Berlim já que a mesma resolveu viajar com um novo namorado e nem sequer avisou ou se preocupou com os filhos.


O filme é uma lição de abandono, emoções, coragem, responsabilidade e amor. E as crianças, um show de talento. Adorei.


Da Friedrichstrasse pra Potsdamer Platz. No Cinemaxx 1, às 20:30, na sessão „Perspektive deutsches Kino“, o último longa do dia. “Hüter meines Bruders” (My brother´s keeper), de Maximilian Leo, nascido em Colônia, mostra em 88 minutos a vida de dois irmãos, Gregor (Sebastian Zimmler) e Pietschi (Robert Finster).


Os dois tem estilo de vida completamente diferente, apesar de apenas dois anos de idade entre eles. Gregor, 32, é médico, casado, sério e “certinho”. Pietschi, 30, vive sem compromissos, fuma, curte a noite e as mulheres, é artista, criativo e aventureiro. 


Mesmo sem quase se encontrarem, uma vez por ano os dois fazem, tradicionalmente, férias juntos pra velejar. Durante estas férias, Pietschi some e nunca mais dá notícias.


Gregor começa a procurar desesperado pelo irmão e percebe o quão pouco conhece do mesmo. Consegue entrar no seu apartamento e praticamente assume a personalidade de Pietschi, namorando inclusive a garota pela qual ele era apaixonado, Jule (Nadja Bobyleva).


Se Pietschi morreu, fugiu, se perdeu, o filme não deixa claro. De acordo com o diretor, que também estava presente na sala, foi feito assim propositalmente, para que cada espectador possa imaginar a continuação da história como quiser. Interessante roteiro.



Voltei para casa acabada de cansaço e com a primeira lição da Berlinale: tentar assistir aos filmes no mesmo cinema para evitar o vai e vem por toda Berlim!! 


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